A vida não é uma resposta

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Participo das reuniões do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Ensino e Diferença (Leped), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), desde 2006. Foi na companhia da Profa. Maria Teresa Mantoan que eu me encontrei com Larrosa, Deleuze, Tomaz Tadeu, Boaventura, Bauman, Fina Birulés e tantos outros autores, dentre eles, a própria Profa. Maria Teresa. Foram muitas as leituras e as conexões. Eu nunca soube ler sem que relacionasse o texto lido à minha vida e, principalmente, ao meu trabalho no campo educacional. Foi assim que construí minhas próprias teorias e também a professora, fonoaudióloga educacional, a professora de Língua Brasileira de Sinais (Libras) e do Atendimento Educacional Especializado (AEE), a tradutora e intérprete de Libras e a pesquisadora que sou. Em 2009 Flavio, meu esposo, esteve em Barcelona. Ele sabia do meu encanto pelos textos de Larrosa e me presenteou com três de seus livros: La experiencia de la lectura, Dejame que te cuente e Entre las lenguas. Eu não sabia ler na língua espanhola e foi decifrando cada pensamento registrado nos livros de Larrosa, que dela me aproximei: atribuí sentido aos textos lidos e a paixão pelos escritos daquele autor e pelo espanhol só aumentava. Eu já havia sido envolvida pelos pensamentos sobre a experiência da leitura enquanto trabalhava em uma universidade filantrópica e confessional no interior de São Paulo como professora no curso de Pedagogia, e também no AEE em que trabalhei com Francisco, um aluno surdo. Deleuze ainda comporia o devir, mas quando surgiu como um autor a ser estudado no Leped/Unicamp em 2010, fui novamente presenteada com dois livros, até então pertencentes à estante de Flavio: Diferença e Repetição e Kafka por uma literatura menor. Ao término deste estudo estas duas obras deslocaram-se para a minha pequena biblioteca, foi inevitável. A experiência da leitura não é apenas um objeto de estudo para mim. É antes aquilo que acontece e me conduz por planos que mantém uma relação íntima com as pessoas, com o ser e estar no mundo de maneira colaborativa e por pensamentos que se modificam e se diferenciam. Só mais tarde aprendi que poderia chamar esta maneira singular de viver como aquela que se dá em um plano de imanência. No trabalho de mestrado narrei experiências de ensino da Libras e da Língua Portuguesa à um aluno surdo no ensino superior. O que construímos juntos certamente não coube e nunca caberá nesse estudo. Esta também não é a minha intenção. Vim para o mestrado, pois sabia que tinha muito a produzir na academia e porque o título de mestre me abriria portas para atuar de outra maneira no ensino superior (entre outros lugares). Sei que se fosse possível registrar em meu Currículo Lattes todos os trabalhos que até hoje desenvolvi, eles pouco me ajudariam se um edital solicitasse o título de Mestre para concorrer a uma vaga onde quer que seja. Era melhor ingressar em um curso de pós-graduação e passar por mais esta etapa de minha formação, nem menos nem mais importante do que todos os passos que até hoje percorri. Defender o que dissertei no mestrado é para mim simplesmente importante. Durante a defesa desse estudo me senti com o pensamento e com o coração arejados, pois não me propus a falar sobre tudo o que vivi e redigi nesse trabalho. Isto seria para mim impossível! Então optei por me deliciar nas linhas de mais esta narrativa (Mônada) e registrar os meus melhores e mais zelosos pensamentos produzidos até então. O mestrado me oportunizou escrever na linguagem monadológica. Defendê-lo por meio desta leitura em voz alta não foi apenas uma escolha, mas uma imposição do meu pensamento e da minha linguagem. Alguns questionarão: “A apresentação de minha dissertação feita com a leitura de uma Mônada?” Àqueles que aceitarem viver a experiência da escuta dos sons/grafemas e dos sentidos daquilo que apresento nesta Mônada, poderá se abrir uma oportunidade de deslocamento sobre o que é ler e o que é produzir conhecimentos no campo educacional. Nesse estudo eu não falo sobre Mônadas, mas nas próprias Mônadas. Antes que o Atendimento Educacional Especializado estivesse fortalecido pelas políticas e diretrizes educacionais atuais, eu já acreditava que era preciso oferecer um atendimento especializado, que nada se parecesse com o ensino comum, às pessoas com deficiência. Nesta direção sempre caminhei. A convivência com os alunos surdos me fez confiar em uma proposta educacional em que todos, sem exceção, tivessem a oportunidade de conviver e de produzir conhecimentos juntos. Eram os alunos e seus movimentos de diferenciação de tudo aquilo que os constitui que conduziam o meu trabalho onde quer que eu estivesse. Mais tarde aprendi, de novo na companhia da Profa. Maria Teresa, que o conceito de diferença humana sustentaria esta metodologia de trabalho. Eu não sei atuar de outra maneira. Eu não desejo afirmar: O Bilinguismo é a filosofia educacional mais adequada para o ensino de pessoas surdas. Eu desejo me apresentar, interagir e conviver com os alunos surdos deixando que eles me deem os sinais de quais recursos e estratégias serão importantes para que a escolarização de cada um deles Aconteça de maneira fluida, justa e humana. Defendo que o melhor lugar para localizar o trabalho, no AEE, com alunos surdos é o Vão que existe entre cada uma das filosofias educacionais: o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilinguismo. Estou convicta de que estas filosofias educacionais podem me alimentar no momento de tomar uma decisão sobre como ensinar alunos surdos, mas nenhuma delas poderá me afastar desses alunos por meio de uma identidade surda. Para promover um ensino inclusivo a todos os alunos é preciso conviver com os processos de transformação da Diferença que os compõem, ora camuflando-se ora escancarando-se, diante dos meus olhos. Acredito e defendo que é assim que se dá a construção de um plano de imanência no AEE. No encontro entre o professor e o aluno. Não em um encontro qualquer, descuidado. É preciso que o professor conheça teorias e a Tecnologia Assistiva para recorrer a elas sempre que necessário, evitando os caminhos do acaso e também o controle da multiplicação da diferença humana. Neste estudo evidenciou-se que o AEE como um plano de imanência é aquele que tem os seus contornos definidos pelas pessoas e pelas oportunidades de aprender que compõem este plano. No meu entender, enquanto professores e pesquisadores estiverem ocupados com as tarefas de: definir as capacidades dos alunos surdos; a filosofia educacional para o ensino de surdos a ser adotada pelas escolas brasileiras; onde e na companhia de quem eles devem estudar; não será possível trabalhar em um AEE que se faz plano de imanência e no qual o acontecimento se dá. As experiências que tive com Francisco no AEE fortalecem a defesa de uma Pedagogia da Diferença e o AEE como um plano de imanência que se faz solo para que todos vivam o acontecimento. E vivendo o acontecimento, alunos e professores singularizam-se e modificam a diferença que os constitui, criando brechas que driblam todas as formas de categorização. Se separarmos alunos surdos em escolas exclusivas, nossas chances de vivermos o acontecimento serão ainda menores, pois o acontecimento tem “gana” de Diferença. Quanto mais esta Diferença se encontrar e se conectar à outra Diferença, mais fecundo será o plano de imanência no qual pensamentos criativos se proliferarão! Quanto mais aberto o plano de imanência, maiores as chances do acontecimento se dar. Sendo o acontecimento o movimento pelo qual a singularidade se faz, quanto mais acontecimentos os alunos surdos viverem mais autênticos serão os seus pensamentos e as suas aprendizagens relacionadas aos conteúdos escolares, inclusive a Língua Portuguesa na sua modalidade escrita. Ao contrário do que se possa imaginar, não é a semelhança que faz proliferar o pensamento, a inteligência, a linguagem, a língua, as emoções e os afetos na sua mais intensa produção, mas sim a Diferença humana. Defendo de maneira ainda mais autêntica que agrupar por semelhança não nos levará a um ensino inclusivo e de qualidade na Educação Infantil, no Ensino Fundamental, Médio e no Superior. Trago evidências de que o convívio com alunos ouvintes, também no AEE, pode contribuir significativamente para a aprendizagem da leitura na Língua Portuguesa por surdos e da Língua Brasileira de Sinais/Libras por ouvintes. Além disso, quando se ensina também se aprende, logo, alunos ouvintes ao ensinar a Língua Portuguesa aprofundam seus conhecimentos nessa língua e vice-versa. Em 2011 ingressei no Mestrado. Foi muito bom e prazeroso cumprir os créditos, participar do Programa de Estágio Docente (PED), escrever cada linha, lê-las várias vezes, preparar-me para a qualificação e defender o estudo. Da qualificação dentre muitas coisas e sentimentos algo me tocou de maneira especial: o convite à criação de uma linguagem escrita mais acessível. Quando saí do exame de qualificação sabia que não dispunha dessa nova linguagem. Sabia também que seria capaz de criá-la. Foram muitos os encontros com a Profa. Maria Teresa nos meses de novembro e dezembro de 2012. Esta minha orientadora, generosa e bravamente, povoou o meu plano de imanência e me ajudou a criar a linguagem solicitada pela banca do exame de qualificação. Estou convencida de que a recomendação da banca foi pertinente, sensível e adequada. Quanto a isso sou agradecida às professoras Rita e Ana Maria! Eu me sinto feliz pelo trabalho feito. Espero estar compartilhando desta alegria com vocês que escolheram dedicar parte do seu tempo a essa leitura. No carnaval, de 2013, recebi os amigos Lilia e Almir em minha casa. Almir me apresentou uma música de Raul Seixas chamada Todo Mundo Explica, separei alguns de seus trechos que espero inspirem cada leitor durante a experiência de leitura desse estudo:

Não me pergunte porquê

Quem, Como, Onde, Qual, Quando, O Que?

...

Antes de ler o livro que o guru lhe deu

Você tem que escrever o seu

Chega um ponto que eu sinto

Que eu pressinto...

Lá dentro, não do corpo, mas lá dentro-fora

No coração, no sol, no meu peito eu sinto

A estrela, na testa eu farejo

Em todo o universo

Que eu tô vivo

Que eu tô vivo, Que eu tô vivo,

Que eu tô vivo, vivo, vivo como uma rocha

E eu não pergunto

Porque hoje sei que a vida não é uma resposta

E se eu Aconteço aqui

Se deve ao fato de eu simplesmente ser

Se deve ao fato de eu simplesmente

Mas todo mundo explica

Explica Freud, o padre explica

...

Que explica tudo tão bem, vai lá que

Que todo mundo, todo mundo explica

O protestante, o auto-falante

...

E com o carimbo positivo da ciência

Que aprova e classifica

O que é que a ciência tem?

Tem lápis de calcular

Que mais que a ciência tem?

Borracha para depois apagar

Você já foi ao espelho, nego?

Não? Então vá!

Cantor: Raul Seixas

Álbum: Todo Mundo Explica - Mata Virgem (1978)